sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Fundamentalismo, desmoralização e preconceito


    Hoje conversei com dois colegas -um jovem adulto e um senhor de aproximadamente sessenta anos, chamá-lo-ei de Sr. X -, falávamos sobre como lidar com a vida afetiva e suas complicações, quando surgiu o tema preconceito e eu prossegui com as seguintes palavras: “Mas, Sr.X, há pessoas para quem eu não posso assumir meu ateísmo, pois simplesmente serei alvo de discriminação.” E  Sr.X retrucou: “Mas você não é ateu, você pensa que é ateu!”  No momento em que foi dito eu procurei não me importar, tanto que não levei para o lado pessoal, pois sei diferenciar os ataques pessoais dos ataques a meus pensamentos, mas isso me lembrou de algo que ouvi há alguns meses de membros de minha família, que é assaz religiosa e espiritualizada: “Não acredito em ateus. Encha um avião com ateus e deixe-o cair, procure na caixa preta as palavras dita e verá que pelo menos alguém disse: Ai, meu Deus!”  Essa afirmação é fruto de uma problemática maior advinda de uma ignorância arraigada e uma intolerância artificialmente implantada no Brasil, com a finalidade de ofender e desmoralizar os humanistas.

    Assim está escrito no artigo 5º, inciso VI da Constituição da República Federativa do Brasil: “ É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias.”  Ultimamente temos observado, principalmente por parte dos fundamentalistas, uma tentativa de desmoralizar os humanistas e as religiões não cristãs, um bom exemplo disso pode ser observado na questão do aborto presente no segundo turno de nossa última eleição presidencial, tivemos a oportunidade de observar que ambos os candidatos sofreram tentativas de desmoralização pela maneira a que disseram tratar da questão do aborto.  Tal movimento de desmoralização está tomando proporções inimagináveis, o radicalismo está crescendo de maneira bastante expressiva e principalmente ferindo um dos mais importantes artigos de nossa constituição! Porém, assim como os humanistas tem liberdade de crença os fundamentalistas também tem a mesma liberdade de crença e para não termos que chegar a ponto de fazer o jogo da desmoralização temos que mudar as diretrizes dos valores etnocêntricos para valores tolerantes e pacíficos.

     Outro grupo que sofre em demasia com as desmoralizações promovidas pelos fundamentalistas são os homoafetivos. Numa controversa discussão sobre o casamento gay ouvi o seguinte argumento: “Os gays não devem se casar, pois se Deus quisesse que eles ficassem juntos eles poderiam se reproduzir.”  Argumento este que vai totalmente contra as liberdades sociais conquistadas pelos homoafetivos, agora eu pergunto as pessoas que concordam com esse pensamento: os homens e mulheres heterossexuais que são estéreis não devem ficar juntos ou casar-se só por que  eles não podem se reproduzir? Caminhando para o limite da lógica é possível julgar que “deus” também quis que eles fossem estéreis, pois se “deus” quisesse que eles se reproduzissem os teria feito férteis, ou estou errado?  se estou utilizando a lógica errada me corrijam.

      Portanto, caros leitores, temos que encarar a desmoralização do humanismo, do homossexualismo, da tolerância e das religiões não cristãs como um fato, pois isto está presente em nossa sociedade ferindo o inciso VI do artigo 5º da C.R.F.B/88 , temos que lutar fortemente contra isso( não contra o cristianismo, mas contra a intolerância gerada pela alienação e pregação de valores tortos em desacordo com os verdadeiros valores cristãos), pois a intolerância é um câncer a ser vencido, como disse Rousseau: “As únicas religiões que devem ser toleradas, são aquelas que toleram as outras.” 

Delenda Intolerantia!